Poucos países conseguiram um feito tão improbável como a África do Sul. Durante boa parte do século XX, tornou-se o exemplo mais conhecido de como um Estado pode organizar a discriminação racial com uma eficiência burocrática quase assustadora. No entanto, quando tudo fazia prever um banho de sangue, surpreendeu o mundo ao tentar desmontar esse sistema através do diálogo e da reconciliação. Não resolveu todos os problemas — e ninguém minimamente sério afirmaria o contrário —, mas provou que a História, de vez em quando, gosta de contrariar os especialistas.
O preço de tentar governar o território e o entreposto colonial
Muito antes de aparecer nos noticiários internacionais, a região já era habitada pelos povos khoisan e, mais tarde, por comunidades bantu que se espalharam por grande parte da África Austral. Tudo seguia o ritmo normal da época até que, em 1652, a Companhia Holandesa das Índias Orientais decidiu instalar um pequeno posto de abastecimento no Cabo da Boa Esperança. A História conhece demasiado bem este argumento.
Sempre que um império diz que pretende apenas “um pequeno entreposto comercial”, convém esconder a mobília e guardar a escritura da casa. De facto, o entreposto cresce, cria raízes e, quando alguém dá por isso, já nasceu uma colónia inteira. Foi exatamente isso que aconteceu. Além disso, vieram colonos neerlandeses, depois britânicos, e seguiram-se disputas, migrações e guerras entre europeus que discutiam quem tinha mais direito a governar uma terra onde já vivia muita gente antes de eles aparecerem.
A corrida ao ouro, aos diamantes e as grandes potências
Como se a localização estratégica não bastasse, alguém descobriu diamantes. Pouco depois, encontraram-se enormes jazidas de ouro. Por conseguinte, a comunidade internacional desenvolveu imediatamente um interesse quase comovente pelo futuro da região.
A História coleciona coincidências curiosas, e uma delas é a rapidez com que as grandes potências descobrem a importância de um território quando começam a sair pedras preciosas e metais valiosos do subsolo. Assim, depois das Guerras dos Bôeres, o Reino Unido consolidou o seu domínio e, em 1910, nasceu a União Sul-Africana.
No papel, era um novo país. Contudo, na prática, a esmagadora maioria negra continuava excluída da vida política, enquanto uma minoria branca controlava praticamente todas as alavancas do poder. Era apenas o prefácio de um capítulo muito mais sombrio.
A máquina burocrática do apartheid e a resistência histórica
Esse capítulo começou oficialmente em 1948, quando o Partido Nacional venceu as eleições e transformou o apartheid em política de Estado. A palavra significa “separação”, porém o sistema fazia muito mais do que separar. O governo classificava cada cidadão segundo critérios raciais e decidia onde podia viver, estudar, trabalhar, casar, votar e até qual a porta por onde devia entrar em determinados edifícios.
Era uma máquina administrativa extraordinariamente organizada. Infelizmente, estava ao serviço de uma das ideias mais injustas do século XX. Na verdade, é impressionante aquilo que a Humanidade consegue fazer quando junta eficiência, formulários e uma péssima ideia.
Durante décadas, milhões de sul-africanos resistiram como puderam: através de manifestações, greves, movimentos políticos, boicotes internacionais e, em alguns casos, luta armada. O regime parecia sólido, todavia havia uma pequena dificuldade que nenhum governo consegue resolver para sempre: quando se nega liberdade à maioria da população, a conta acaba inevitavelmente por chegar.
Nelson Mandela, Desmond Tutu e a reconciliação nacional
Entre os muitos nomes da resistência destacou-se Nelson Mandela. Passou vinte e sete anos na prisão por combater o regime e, quando finalmente saiu em liberdade, quase toda a gente esperava um homem consumido pelo desejo de vingança. No entanto, Mandela decidiu fazer precisamente o contrário. Sentou-se à mesa com aqueles que durante décadas tinham feito tudo para que essa conversa nunca acontecesse.
Em 1994 realizaram-se as primeiras eleições verdadeiramente democráticas da história do país, e Mandela tornou-se Presidente. Por isso, em vez de promover perseguições generalizadas, nasceu a Comissão da Verdade e Reconciliação, liderada por Desmond Tutu, onde vítimas e responsáveis pelos abusos do apartheid podiam contar publicamente o que tinha acontecido.
A ideia parecia quase ingénua: trocar parte da vingança pela verdade. Funcionou de forma perfeita? Claro que não. A História raramente entrega finais perfeitos. Ainda assim, funcionou suficientemente bem para evitar uma guerra civil que muitos consideravam praticamente inevitável, e isso, por si só, já foi um feito extraordinário.
A Nação Arco-Íris perante os desafios do futuro
Naturalmente, a democracia não resolveu tudo com um estalar de dedos. A África do Sul continua a enfrentar enormes desafios, como a criminalidade, a desigualdade social, o desemprego, a corrupção e as profundas feridas deixadas por séculos de exclusão.
Apesar disso, permanece uma das economias mais importantes do continente africano, possui universidades de referência, uma riqueza cultural impressionante, onze línguas oficiais e algumas das paisagens mais espetaculares do planeta, capazes de fazer qualquer fotógrafo acreditar que a Natureza resolveu gastar ali uma boa parte do orçamento.
Hoje, quando se fala da “Nação Arco-Íris”, expressão popularizada por Desmond Tutu, não se está a dizer que todas as diferenças desapareceram. Pelo contrário, está-se a reconhecer que um país construído sobre muros teve a coragem de começar a construir pontes.
A maior riqueza sul-africana: transformar esperança em futuro
Talvez essa seja a maior riqueza da África do Sul. Ouro e diamantes encontram-se noutros lugares do mundo. Em contrapartida, a capacidade de olhar para um passado profundamente injusto, admitir os seus erros e tentar seguir em frente continua a ser um recurso bastante mais raro.
Afinal, transformar minério em riqueza é difícil. Portanto, transformar sofrimento em esperança é uma obra muito mais ambiciosa.
